domingo, 14 de julho de 2024

Uma coisa secundária, derivada, miserável

"[...] e viu de repente que todas as pessoas com quem convivia naquela cidade eram na realidade apenas linhas absorvidas por uma folha de mata-borrão, seres com atitudes intercambiáveis, criaturas sem substância sólida; mas o que era pior, bem pior (pensou em seguida), era que ele próprio não passava da sombra de todos esses personagens-sombras, pois esgotava todos os recursos de sua inteligência com o único objetivo de se adaptar a eles e imitá-los, e por mais que os imitasse rindo internamente, sem levá-los a sério, por mais que se esforçasse desse modo para ridicularizá-los em segredo (e para justificar assim seu esforço de adaptação), isso não mudava nada, pois uma imitação, mesmo maldosa, continua sendo uma imitação, mesmo uma sombra que escarnece continua sendo uma sombra, uma coisa secundária, derivada, miserável."

KUNDERA, Milan. Eduardo e Deus. In: Risíveis amores. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. 1a. ed. São Paulo: Companhia das Letras.

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