domingo, 10 de setembro de 2023

Oleg, Holden e o enfado de todos os dias


Não sou um grande leitor de HQs, mas vez por outra (na verdade, com uma frequência maior que a sugerida pela expressão) volto a Oleg, do Frederik Peeters. Geralmente o faço aos domingos, é o dia que, sem saber explicar as razões, sinto vontade de ler uma HQ. Foi assim hoje, e lá fui em busca de encontrar Oleg entre meus livros.

A HQ entraria na categoria dos autobiográficos, fatia que, segundo o próprio Oleg, é antiquada e demasiado ligada ao que produziam nos anos 1990 e 2000. Talvez seja essa uma das razões pelas quais sempre acabo voltando a ela. A HQ é uma coleção de momentos da vida de um homem comum de nossa época que parece, por inclinação natural, mais ligado ao estilo de vida de duas décadas atrás. Boa parte de seus conflitos gira em torno desse deslocamento subjetivo, desse sentimento de inadequação. Oleg se sente profundamente incomodado diante de práticas, comportamentos e opiniões que, hoje, são parte de nossa arquitetura social, e se mantém deliberadamente afastado, por exemplo, de coisas como redes sociais, instâncias medulares de consagração e rejeição (inclusive no âmbito artístico) nesta segunda década do novo século.

No final das contas, Oleg é um personagem carrancudo e reclamão, como um Holden Caulfield de meia idade obrigado a tolerar a fragilidade das conexões e o culto às personalidades do século XXI. Como a criação de Salinger, ele perambula pelas ruas de sua cidade remoendo seu próprio enfado, tentando se blindar de elementos intrusivos e falhando miseravelmente (ad infinitum) em encontrar seu lugar no mundo.

domingo, 3 de setembro de 2023

Os ciborgues e as fronteiras

Minha relação com o modo pelo qual as teorias pós-estruturalistas explicam o mundo (e a arte) é cheia de altos e baixos. Por um lado, entendo que elas surgem como uma atualização necessária — para o caráter difuso e diluído de nossa contemporaneidade — do estruturalismo clássico. Por outro, não deixo de me sentir desafiado (incomodado?) pela falta de referências e categorias sólidas, pela sensação de que cada objeto pode demandar metodologias e formas de abordagem específicas, completamente outras. Sei que me aferrar ao passado é, na melhor das hipóteses, arriscado e filosoficamente perigoso (para não dizer flagrantemente retrógrado), mas até hoje não consigo não lamentar (intimamente) a falta de posições e categorias firmes que me (nos) ajudem a avançar pelos caminhos da investigação filosófica.

Escrevo sobre isso porque acabei de ler o Manifesto ciborgue, da Donna Haraway, um texto que se articula basicamente em torno da ideia da implosão de fronteiras — entre biologia e máquina, entre humanidade e animalidade, entre homem e mulher. Claro que a impressão imediata, em se tratando de um texto de meados da década de 1980, é a de que Haraway foi uma visionária e conseguiu profetizar boa parte do que nossa relação (cada vez mais problemática) com a tecnologia viria a ser a partir da virada entre séculos. Sob esse aspecto, ler Manifesto ciborgue é uma experiência de fato impactante.

Mais que isso, suas reflexões sobre a necessidade de se estabelecer uma resistência monstruosa (regeneração ao invés de renascimento) às novas formas de dominação e exploração hegemônicas que se estabelecem nesse mundo ciborgue são urgentes e, ainda hoje (talvez mais hoje do que à época de sua publicação) politicamente acuradas. Nessa nova era, arquitetada sobre sistemas de informação cada vez mais complexos, ergue-se um novo (que, na verdade, é bem velho) tipo de autoridade repressiva que exige novas estratégias de resistência — as quais ainda não emergiram com a intensidade e o nível de organização que a urgência da situação exige.

É difícil não estar de acordo com os argumentos de Haraway em suas proposições mais práticas, mas aquele (meu) controverso apego às categorias e estruturas (me) faz enxergar com alguma desconfiança suas reflexões acerca dessa absoluta confusão das fronteiras. Fico me perguntando se a abolição de qualquer referência (sim, sei que elas são resultado de um processo de colonialismo filosófico-científico que precisa ser superado) não acabaria dificultando essa tão necessária organização de uma nova resistência. Nossa filosofia é pós, mas nossa realidade é pré, e não deixa de me parecer algo arrogante e socialmente deslocado preconizar a abolição das estruturas sobre as quais ainda se elabora nossa realidade mais cotidiana.

Nesse aspecto, me parece mais factível e positivo o que diz Chomsky em suas proposições socialista libertárias: antes de romper as grades da prisão, é necessário alargar seus limites.