sábado, 17 de fevereiro de 2024

Além disso, tinha vontade de ficar só

Herzog em uma partida de futebol / Crédito: Internationale Hofer Filmtage/dpa

Hoje, por acaso, nas prateleiras de livros usados de uma loja, encontrei um livrinho do qual eu nunca havia ouvido falar. Do Werner Herzog, o cineasta, um volume curto chamado Caminhando no gelo, publicado aqui pela Paz e Terra em 1982. Abaixo transcrevo a "Nota prévia" do livro, texto introdutório do próprio autor que, mais do que resumir a proposta da obra, me pareceu particularmente bonito. 

"Nota prévia

Em fins de novembro de 1974, um amigo de Paris me telefonou, dizendo que Lotte Eisner estava muito doente, à beira da morte. Não pode ser, eu disse. Não agora. O cinema alemão ainda não pode ficar sem ela, não devemos deixá-la morrer. Peguei um casaco, uma bússola e uma sacola com o indispensável. Minhas botas estavam tão sólidas e novas, que me inspiravam confiança. Pus-me a caminho de Paris pela rota mais curta, na certeza de que ela viveria se eu fosse encontrá-la a pé. Além disso, tinha vontade de ficar só. 

O que escrevi pelo caminho não deveria ser publicado. Agora, quase quatro anos depois, ao reler esse caderninho de notas, fui tomado de uma estranha emoção, e o desejo de mostrá-lo venceu minha timidez de desnudarem assim aos olhos dos outros. Apenas algumas passagens muito íntimas foram suprimidas. 

W. H.

Delft, Holanda, 24 de maio de 1978"

(HERZOG, Werner. Caminhando no gelo. 1a. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1982)


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