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| Gosto de cereja, 1997, de Abbas Kiarostami |
"— Vire à esquerda, por favor.
— Eu não conheço essa estrada.
— Eu conheço. É mais longa, porém é melhor e mais bonita. Tenho sido prisioneiro desse deserto por 35 anos. Vou te contar algo que aconteceu comigo. Foi logo depois de eu me casar. Nós passamos por todos os tipos de dificuldade. Eu estava tão farto dessa situação que decidi dar um fim nisso. Um dia, antes de amanhecer, coloquei uma corda no meu carro. Eu já tinha me decidido. Queria me matar. Eu parti para Mianeh. Isso foi em 1960. Passei por uma plantação de amoras. Eu parei lá. Ainda estava escuro. Joguei a corda sobre uma árvore, mas ela não se manteve. Eu tentei uma, duas vezes, mas sem sucesso. Então eu subi na árvore e amarrei a corda bem firme. Então eu senti algo macio sobre a minha mão. Amoras. Amoras belas e deliciosas. Comi uma. Estava suculenta, então peguei a segunda e a terceira. De repente, eu notei que o sol estava surgindo entre as montanhas. Aquele sol, aquela paisagem, aquela vegetação! De repente, eu ouvi crianças indo para a escola. Elas pararam para me olhar. Me pediram para sacudir a árvore. As amoras caíram e elas comeram. Me senti feliz. Então eu recolhi algumas amoras para levar para casa. Minha esposa ainda estava dormindo. Quando ela acordou, também comeu as amoras. Ela adorou. Eu tinha partido para me matar, e voltei para casa com amoras. Uma amora salvou a minha vida. Uma amora salvou a minha vida.
— Você comeu amoras, sua esposa também comeu, e tudo ficou bem.
— Não, não foi bem assim, mas eu mudei. Depois ficou melhor, mas de fato a minha mente mudou. Me senti melhor. Todo homem na Terra tem problemas na vida. É assim que é. Há tantas pessoas na Terra. Não há uma família sequer sem problemas. Eu não sei qual o seu problema, do contrário eu poderia explicar melhor. Quando você vai ver o médico, você lhe diz onde dói.
[...]
— Eu saí de casa para me matar, mas uma amora me mudou, uma amora comum e sem importância. O mundo não é como você vê. Você tem que mudar a sua perspectiva e mudar o mundo. Seja otimista. Olhe as coisas pelo lado bom. Você está na sua melhor fase! Por conta de um pequeno problema você quer se matar. Por um único problema. A vida é como um trem que continua seguindo em frente e então chega no final da linha, no terminal. E a morte o espera no terminal. Claro, a morte é uma solução. Mas não a primeira, não durante a juventude. Me desculpe por arrastá-lo ao longo dessa estrada rochosa. Você acha que algo é bom, até perceber que está errado. O mais importante é pensar bastante. Você acredita que está fazendo algo certo, mas então percebe que está errado. Fale, me diga alguma coisa para que eu faça uma pausa. Eu já falei demais. Já disse tudo. Eu fiz um discurso inteiro. Diga alguma coisa! Vire à esquerda aqui, por favor. De qualquer forma, se você não falar, eu vou falar mais um pouco. Se você não falar, eu vou. Você perdeu toda a esperança? Você já olhou para o céu quando acordou de manhã? Ao amanhecer, não quer mais ver o sol nascer? O vermelho e o amarelo do pôr do sol, você não quer mais vê-lo? Já olhou para a lua? Não quer ver as estrelas? A noite de lua cheia, não quer vê-la de novo? Você quer fechar os olhos? Por favor, tome a decisão correta! As pessoas do outro lado gostariam de dar uma olhada aqui e você quer apressar sua ida para lá! Você não quer beber água de uma fonte novamente? Ou lavar seu rosto nessa mesma água? Vire à direita! Se você observar as quatro estações, cada uma delas traz frutos. No verão, há frutas, no outono também, o inverno traz frutas diferentes e a primavera também. Nenhuma mãe pode encher a geladeira com tanta variedade de frutas para seus filhos. Nenhuma mãe pode fazer tanto pelos seus filhos quanto Deus faz por suas criaturas. Você quer abrir mão de tudo isso? Quer desistir de tudo isso? Você quer abdicar do gosto das cerejas?"
(KIAROSTAMI, Abbas. Gosto de cereja. 1997)