terça-feira, 11 de junho de 2024

Numa hora um livro, noutra hora outro

Montaigne, em um de seus ensaios, sobre a boa vida:

"Chego à entrada e vejo, abaixo de mim, o jardim, meu quintal, o pátio dos animais, e na maior parte membros da casa. Lá folheio numa hora um livro, noutra hora outro, sem ordem e sem plano, em pedaços incoerentes; ora sonho, ora registro e dito, passeando, os sonhos que apresento aqui. Ela está no terceiro andar de uma torre; o primeiro é minha capela; o segundo um quarto e seus equipamentos, onde durmo com frequência só; acima, há um grande armário. No passado, era o lugar mais inútil de minha casa. Passo lá a maior parte dos dias de minha vida, e a maior parte das horas do dia; nunca à noite [...]. A forma é redonda e só tem de plano o que é necessário para minha mesa e minha cadeira; curvando-se, ela me oferece, num lance, todos os meus livros, ordenados sobre suportes a cinco graus em toda a volta. Ela tem três vistas de rica e livre perspectiva, e dezesseis passos de diâmetros vazios. No inverno, fico lá menos continuamente, pois minha casa está pendurada numa colina, como diz seu nome, e não tem cômodo mais ventilado do que este, que me agrada em ser um pouco penoso e um pouco afastado, tanto para o fruto do exercício quanto para afastar de mim a multidão. Esta é minha sede: tento ter seu puro domínio e a retirar apenas este canto da comunidade conjugal, filial e civil. Sobre todos os outros lugares tenho apenas uma autoridade verbal, em essência, confusa. Miserável, na minha opinião, aquele que não tem em sua casa onde estar consigo mesmo, onde fazer a corte particularmente a si mesmo ou se esconder." 

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