segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Nunca apenas por falar

Crédito: The Paris Review

Knausgård sobre sua mãe no primeiro volume de Minha luta: “Era como se ela não estivesse usando um artifício para se proteger. Aliás, ela jamais fazia isso. Quando falava, era sempre para dizer o que tinha em mente, nunca apenas por falar.”

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Uma breve reflexão de Foucault sobre o amor homossexual. Em uma entrevista de 1982, ele afirmou que “o melhor momento, no amor, é quando o amante se distancia no táxi”. Interessantíssimo seu raciocínio de que, por carecer de uma representação cultural histórica – ao contrário do que acontece com os casais heteronormativos –, os homossexuais teriam construído suas relações em torno de um consumo imediato e urgente do ato sexual. Aos heterossexuais, o flerte, a conquista, o amor perfeito do cinema e dos comerciais de margarina. Aos gays, esquecidos pela cultura dominante, acossados por uma perseguição jamais cessada, a rapidez e furtividade dos encontros proibidos, o ato sedento, a pressa. 

sábado, 21 de outubro de 2023

Contemplação e escuta

Fonte: picture-alliance/KEYSTONE

"Por muito tempo quedou-se sentado junto ao leito, contemplando o rosto da defunta. Por muito tempo, mirou-lhe a boca, essa boca envelhecida, fatigada, com os lábios encolhidos. Lembrou-se de que, na primavera da sua vida, comparara-a a um figo recém-cortado. Por muito tempo permaneceu ali, a decifrar o que lhe revelava o semblante lívido, com as rugas traçadas pelo esgotamento. Imbuía-se daquela visão. Imaginava-se a si próprio, a jazer assim, igualmente exangue, igualmente extinto, e ao mesmo tempo lhe voltavam à memória os dois rostos, o seu e o dela, ambos jovens, de lábios rubros, de olhos ardorosos. Inteiramente o penetrava a sensação do presente e da simultaneidade, a sensação da eternidade. Nessa hora, Sidarta percebeu claramente, com maior nitidez do que nunca, que toda a vida é indestrutível, e cada instante, eterno." (Hesse, 2021, p. 210).

É lindo como Hesse conduz o personagem de Sidarta por um trajeto que, aos poucos, se revela cíclico, sustentado por uma ideia de simultaneidade que apenas pouco a pouco se revela. Sidarta passa, repetidas vezes, por pequenos episódios epifânicos, por breves iluminações que são sugadas pela torrente caudalosa (para manter a metáfora do rio, tão cara ao autor) de sua busca incansável por conhecimento e sabedoria. No fim do romance, quando, por fim, tudo lhe é revelado, percebemos que já havíamos — nós e ele — tido vislumbres dessa revelação. A busca por conhecimento, em Hesse, é — e é essa a impressão que tenho depois da leitura de alguns de seus textos — menos procura e caça, e mais presença e contemplação.

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"Enquanto ele falava sem parar e Vasudeva o escutava com o rosto impassível, Sidarta notava mais fortemente do que nunca o encanto dessa atenção do amigo. Observava que suas dores, suas angústias, fluíam em direção ao outro, que suas mais arcanas esperanças tomavam o mesmo rumo e lhe eram devolvidas pelo companheiro. Expor a sua ferida a uma pessoa que soubesse ouvir como só Vasudeva sabia fazê-lo era como se a lavasse no rio, até que cessasse de arder e se unisse com a água." (Hesse, 2021, p. 242).

Há em Sidarta tantas passagens sobre a beleza da escuta silenciosa, sobre a importância de praticá-la. É, fica evidente, um dos elementos centrais desse processo epifânico de substituição da caça (da sabedoria) pela contemplação.  

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HESSE, Hermann. Sidarta. Tradução de Herbert Caro. 68a. ed. Rio de Janeiro: Record, 2021, p.210.


domingo, 1 de outubro de 2023

Primavera e luto


The Widow's Lament in Springtime 

Sorrow is my own yard
where the new grass
flames as it has flamed
often before but not
with the cold fire
that closes round me this year.
Thirtyfive years
I lived with my husband.
The plumtree is white today
with masses of flowers.
Masses of flowers
load the cherry branches
and color some bushes
yellow and some red
but the grief in my heart
is stronger than they
for though they were my joy
formerly, today I notice them
and turn away forgetting.
Today my son told me
that in the meadows,
at the edge of the heavy woods
in the distance, he saw
trees of white flowers.
I feel that I would like
to go there
and fall into those flowers
and sink into the marsh near them. 

WILLIAMS, William Carlos. The Widow's Lament in Springtime. Em: A cidade esquecida e outros poemas. 1a ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2023.

> E a tradução de José Paulo Paes, que me chama atenção principalmente pelo uso de "deslembrada" para traduzir "forgetting":

O lamento da viúva em plena primavera

O pesar é o meu quintal
onde a grama nova
flameja como tantas vezes
flamejou antes não porém
com o fogo gélido
que se fecha este ano à minha volta.
Trinta e cinco anos
vivi com meu marido.
A ameixeira hoje está branquinha
de pencas de flores.
Pencas de flores
carregam os galhos de cerejeira
e dão a alguns arbustos cor
amarela e vermelha a outros
mas o pesar dentro de mim
é mais forte que elas
pois embora fossem a minha alegria
antigamente, eu hoje as vejo
e lhes volto as costas deslembrada.
Hoje o meu filho me disse
que para lá dos prados,
na orla da floresta cerrada,
viu à distância
árvores de flores brancas.
Bem que eu gostaria
de ir até lá
para deixar-me tombar sobre essas flores
e afundar no brejo perto delas.