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| Fonte: picture-alliance/KEYSTONE |
"Por muito tempo quedou-se sentado junto ao leito, contemplando o rosto da defunta. Por muito tempo, mirou-lhe a boca, essa boca envelhecida, fatigada, com os lábios encolhidos. Lembrou-se de que, na primavera da sua vida, comparara-a a um figo recém-cortado. Por muito tempo permaneceu ali, a decifrar o que lhe revelava o semblante lívido, com as rugas traçadas pelo esgotamento. Imbuía-se daquela visão. Imaginava-se a si próprio, a jazer assim, igualmente exangue, igualmente extinto, e ao mesmo tempo lhe voltavam à memória os dois rostos, o seu e o dela, ambos jovens, de lábios rubros, de olhos ardorosos. Inteiramente o penetrava a sensação do presente e da simultaneidade, a sensação da eternidade. Nessa hora, Sidarta percebeu claramente, com maior nitidez do que nunca, que toda a vida é indestrutível, e cada instante, eterno." (Hesse, 2021, p. 210).
É lindo como Hesse conduz o personagem de Sidarta por um trajeto que, aos poucos, se revela cíclico, sustentado por uma ideia de simultaneidade que apenas pouco a pouco se revela. Sidarta passa, repetidas vezes, por pequenos episódios epifânicos, por breves iluminações que são sugadas pela torrente caudalosa (para manter a metáfora do rio, tão cara ao autor) de sua busca incansável por conhecimento e sabedoria. No fim do romance, quando, por fim, tudo lhe é revelado, percebemos que já havíamos — nós e ele — tido vislumbres dessa revelação. A busca por conhecimento, em Hesse, é — e é essa a impressão que tenho depois da leitura de alguns de seus textos — menos procura e caça, e mais presença e contemplação.
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"Enquanto ele falava sem parar e Vasudeva o escutava com o rosto impassível, Sidarta notava mais fortemente do que nunca o encanto dessa atenção do amigo. Observava que suas dores, suas angústias, fluíam em direção ao outro, que suas mais arcanas esperanças tomavam o mesmo rumo e lhe eram devolvidas pelo companheiro. Expor a sua ferida a uma pessoa que soubesse ouvir como só Vasudeva sabia fazê-lo era como se a lavasse no rio, até que cessasse de arder e se unisse com a água." (Hesse, 2021, p. 242).
Há em Sidarta tantas passagens sobre a beleza da escuta silenciosa, sobre a importância de praticá-la. É, fica evidente, um dos elementos centrais desse processo epifânico de substituição da caça (da sabedoria) pela contemplação.
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HESSE, Hermann. Sidarta. Tradução de Herbert Caro. 68a. ed. Rio de Janeiro: Record, 2021, p.210.

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