terça-feira, 30 de julho de 2024

Que sabem as árvores de Santa Bárbara?

IV

Esta tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme...

Como alguém que duma janela alta
Sacode uma toalha de mesa,
E as migalhas, por caírem todas juntas,
Fazem algum barulho ao cair,
A chuva chiou do céu
E enegreceu os caminhos...

Quando os relâmpagos sacudiam o ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz que não,
Não sei porquê — eu não tinha medo —
Pus-me a querer rezar a Santa Bárbara
Como se eu fosse a velha tia de alguém...

Ah, é que rezando a Santa Bárbara
Eu sentia-me ainda mais simples
Do que julgo que sou...
Sentia-me familiar e caseiro
E tendo passado a vida
Tranquilamente, como o muro do quintal;
Tendo ideias e sentimentos por os ter
Como uma flor tem perfume e cor...

Sentia-me alguém que possa acreditar em Santa Bárbara...
Ah, poder crer em Santa Bárbara!

(Quem crê que há Santa Bárbara,
Julgará que ela é gente e visível
Ou que julgará dela?)

(Que artifício! Que sabem
As flores, as árvores, os rebanhos,
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore
Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos...
Poderia julgar que o sol
Alumia, e que a trovoada
É uma quantidade de gente
Zangada por cima de nós...
Ah, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas!)

E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega...

***

O poema IV d'O guardador de rebanhos, do Alberto Caeiro. Linda a imagem da vida passada tranquilamente, como o muro do quintal, tendo ideias e sentimentos por os ter. E depois, a desconstrução de uma ideia de simplicidade (artificiosa) que poderia ser ainda mais simples. Para quê, afinal, Santa Bárbara? Se pensasse, um ramo de árvore nunca pensaria em Santa Bárbara. Ah, como os mais simples dos homens / São doentes e confusos e estúpidos.

domingo, 14 de julho de 2024

Art is the earth talking

Showing up, de Kelly Reichardt

 

A disembodied roar

Um belo poema do William Carlos Williams sobre Paterson. Quatro atos de uma revolução antinatureza dos quais se sobressai a transcendência desconcertante do natural. (E como os versos caem como uma catarata).

Paterson: The Falls

What common language to unravel?
The Falls, combed finto straight lines
from that rafter of a rock's
lip. Strike in! the middle of

some trenchant phrase, some
well packed clause. Then...
This is my plan. 4 sections: First,
the archaic persons of the drama.

An eternity of bird and bush,
resolved. An unraveling:
the confused streams aligned, side
by side, speaking! Sound

married to strength, a strenght
of falling — from a height! The wild
voice of the shirt-sleeved
Evangelist rivaling, Hear

me! I am the Resurrection
and the Life! echoing
among the bass and pickerel, slim
eels from Barbados, Sargasso

Sea, working up the coast to that
bounty, ponds and wild streams —
Third, the old town: Alexander Hamilton
working up from St. Croix,

from that sea! and a deeper, whence
he came! stopped cold
by that unmoving roar, fastened
there: the rocks silent

but the water, married to the stone,
voluble, though frozen; the water
even when and though frozen
still whispers and moans —

And in the brittle air
a factory bell clangs, at dawn, and
snow whines under their feet. Fourth,
the modern town, a 

disembodied roar! the cataract and
its clamor broken apart — and from
all learning, the empty
ear struck from within, roaring...


E a tradução do José Paulo Paes.

Paterson: As quedas-d'água

Que linguagem comum desenredar?
As Quedas, linhas retas penteadas
desde aquele caibro, ressalto
de uma rocha. Penetrar! no meio de

alguma frase cortante, alguma
cláusula bem compacta. E então...
Eis o meu plano. 4 partes: A primeira,
as arcaicas personagens do drama.

Uma eternidade de aves e arvoredos,
resolutos. Um desenredamento:
os riachos confusos alinhados, lado
a lado, falando! Som

casando-se a força, uma força
de queda — e que altura! A rústica
voz em mangas de camisa
do Evangelista a emular, Ouçam-

-me! Sou a Ressurreição
e a Vida! a ecoar
entre a perca e o lúcio, entre as esguias
enguias de Barbados e do Mar

de Sargaços, remontando a costa até
aquele prêmio, pegos e riachos bravos —
Terceira, a cidade velha: Alexander Hamilton
remontando desde St. Croix,

desde aquele mar! e um mais fundo, de onde
veio! e interdito parou
ante o rugido imóvel, lá
pregado: as rochas silenciosas

mas, casada à pedra, a água
volúvel, congelada embora; a água
mesmo quando e embora congelada
sussurra ainda e geme —

E no ar friável
toca um sino de fábrica, amanhece e
a neve choraminga aos seus pés. Quarta,
a cidade moderna, num

rugido incorpóreo! a catarata e
seu clamor desconjuntados — e de
todo saber vazio, o
ouvido percutido por dentro, a rugir...


Uma coisa secundária, derivada, miserável

"[...] e viu de repente que todas as pessoas com quem convivia naquela cidade eram na realidade apenas linhas absorvidas por uma folha de mata-borrão, seres com atitudes intercambiáveis, criaturas sem substância sólida; mas o que era pior, bem pior (pensou em seguida), era que ele próprio não passava da sombra de todos esses personagens-sombras, pois esgotava todos os recursos de sua inteligência com o único objetivo de se adaptar a eles e imitá-los, e por mais que os imitasse rindo internamente, sem levá-los a sério, por mais que se esforçasse desse modo para ridicularizá-los em segredo (e para justificar assim seu esforço de adaptação), isso não mudava nada, pois uma imitação, mesmo maldosa, continua sendo uma imitação, mesmo uma sombra que escarnece continua sendo uma sombra, uma coisa secundária, derivada, miserável."

KUNDERA, Milan. Eduardo e Deus. In: Risíveis amores. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. 1a. ed. São Paulo: Companhia das Letras.