domingo, 28 de abril de 2024

28 de abril de 2024, domingo

"Estou tendo dificuldade de escrever sobre o domingo. De captar a longa sensação de vazio dos domingos. Nada de correio, roncos distantes de cortadores de grama, o desamparo." 

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BERLIN, Lucia. Ponto de vista. In: Manual da faxineira. Tradução de Sonia Moreira. 1a. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. pp. 66-71.

domingo, 14 de abril de 2024

Todo o meu tempo

"A literatura é muito importante para que eu não consagre todo o meu tempo a ela."

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ADIMI, Kaouther. As verdadeiras riquezas. Tradução de Sandra M. Stroparo. 1a. ed. Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2019, p. 56.

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Jardim de anciãos

"Olhar, contemplar, observar, torna-se cada vez mais um hábito e um exercício, e imperceptivelmente todo o nosso comportamento é contagiado pelo estado de espírito e a postura de um contemplativo. Atormentados por desejos, sonhos, anseios e paixões como a maioria das pessoas, corremos pelos anos e pelas décadas de nossa vida, impacientes, tensos, cheios de expectativa, intensamente excitados por realizações ou decepções — e hoje folheamos cuidadosamente o grande livro de figuras de nossa própria vida, admirando-nos de como pode ser bom e bonito termos emergido daquela corrida e caçada, chegando à vida contemplativa.

Aqui nesse jardim de anciãos florescem muitas flores que antigamente mal teríamos pensado em cultivar. Aqui nasce a flor da paciência, uma erva nobre, nós vamos ficando mais indiferentes, mais tolerantes, e quanto menor se torna nosso anseio de agir e intervir, tanto maior fica nossa capacidade de observar a vida da natureza e a vida dos nossos semelhantes, e ouvi-la, deixá-la passar diante de nós sem crítica mas com sempre renovado assombro por sua multiplicidade, às vezes com compaixão e silenciosa piedade, às vezes com riso, com alegria clara e com humor." 

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HESSE, Hermann. Sobre a velhice. In: Felicidade. Tradução de Lya Luft. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2023.

Autoaniquilamento pela igualização

Carta de Hermann Hesse a André Gide de janeiro de 1951, um mês antes da morte de Gide.

"Montagnola, janeiro de 1951

Caro e venerado André Gide

Seu novo tradutor Lüsberg me enviou as suas Les Feuilles d'automne [Folhas de outono], já li a maior parte dessas memórias e reflexões, e agora não seria correto nem elegante agradecer a ele sem antes finalmente enviar ao senhor meus cumprimentos e um obrigado.

Há muito eu devia ter feito isso, mas há muito vivo num cansaço resignado e não é nesse estado que se visita alguém mais velho a quem se respeita muito. Mas o cansaço pode durar até o fim, e antes dele eu ainda desejo assegurar-lhe mais uma vez minha inabalável gratidão e simpatia, que cresceram ainda mais nos últimos anos. 

Pessoas como nós, parece, tornaram-se mais raras e começam a sentir-se isoladas, por isso é uma felicidade e um consolo saber no senhor ainda um amante e defensor da liberdade, da personalidade, da singularidade e da responsabilidade individual. A maioria de nossos colegas mais jovens e infelizmente até de nossa geração procuram outra coisa, isto é, uma postura de igualdade, seja a romana, luterana, comunista, seja outra qualquer. Incontáveis já efetuaram essa igualização até o autoaniquilamento. A cada afastamento de um antigo camarada para a Igreja ou o coletivo, a cada perda de um colega cansado ou desesperado demais para continuar sendo um solitário responsável por si mesmo, o mundo para nós se torna mais pobre, e mais difícil a continuação da vida. Penso que o senhor sente coisas semelhantes.

Receba ainda uma vez as saudações de um velho individualista que não pretende ligar-se a nenhuma das grandes engrenagens atuais."

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HESSE, Hermann. Lembrança de André Gide. In: Felicidade. Tradução de Lya Luft. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2023.