"Olhar, contemplar, observar, torna-se cada vez mais um hábito e um exercício, e imperceptivelmente todo o nosso comportamento é contagiado pelo estado de espírito e a postura de um contemplativo. Atormentados por desejos, sonhos, anseios e paixões como a maioria das pessoas, corremos pelos anos e pelas décadas de nossa vida, impacientes, tensos, cheios de expectativa, intensamente excitados por realizações ou decepções — e hoje folheamos cuidadosamente o grande livro de figuras de nossa própria vida, admirando-nos de como pode ser bom e bonito termos emergido daquela corrida e caçada, chegando à vida contemplativa.
Aqui nesse jardim de anciãos florescem muitas flores que antigamente mal teríamos pensado em cultivar. Aqui nasce a flor da paciência, uma erva nobre, nós vamos ficando mais indiferentes, mais tolerantes, e quanto menor se torna nosso anseio de agir e intervir, tanto maior fica nossa capacidade de observar a vida da natureza e a vida dos nossos semelhantes, e ouvi-la, deixá-la passar diante de nós sem crítica mas com sempre renovado assombro por sua multiplicidade, às vezes com compaixão e silenciosa piedade, às vezes com riso, com alegria clara e com humor."
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HESSE, Hermann. Sobre a velhice. In: Felicidade. Tradução de Lya Luft. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2023.
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