domingo, 9 de novembro de 2025

Just a poor deaf-mute bastard

"Finally, what I decided I’d do, I decided I’d go away. I decided I’d never go home again and I’d never go away to another school again. I decided I’d just see old Phoebe and sort of say good-by to her and all, and give her back her Christmas dough, and then I’d start hitchhiking my way out West. What I’d do, I figured, I’d go down to the Holland Tunnel and bum a ride, and then I’d bum another one, and another one, and another one, and in a few days I’d be somewhere out West where it was very pretty and sunny and where nobody’d know me and I’d get a job. I figured I could get a job at a filling station somewhere, putting gas and oil in people’s cars. I didn’t care what kind of a job it was, though. Just so people didn’t know me and I didn’t know anybody. I thought what I’d do was, I’d pretend I was one of those deaf-mutes. That way I wouldn’t have to have any goddam stupid useless conversations with anybody. If anybody wanted to tell me something, they’d have to write it on a piece of paper and shove it over to me. They’d get bored as hell doing that after a while, and then I’d be through with having conversations for the rest of my life. Everybody’d think I was just a poor deaf-mute bastard and they’d leave me alone. They’d let me put gas and oil in their stupid cars, and they’d pay me a salary and all for it, and I’d build me a little cabin somewhere with the dough I made and live there for the rest of my life. I’d build it right near the woods, but not right in them, because I’d want it to be sunny as hell all the time. I’d cook all my own food, and later on, if I wanted to get married or something, I’d meet this beautiful girl that was also a deaf-mute and we’d get married. She’d come and live in my cabin with me, and if she wanted to say anything to me, she’d have to write it on a goddam piece of paper, like everybody else. If we had any children, we’d hide them somewhere. We could buy them a lot of books and teach them how to read and write by ourselves."

J. D. Salinger, The catcher in the rye.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Primeira caminhada de Rousseau

 "Ainda não faz dois meses que a plena calma se restabeleceu em meu coração. Havia muito tempo que eu nada mais temia, porém ainda esperava, e essa esperança, ora alimentada, ora frustrada, era um meio pelo qual mil paixões diversas não cessavam de me agitar. Um acontecimento tão triste quanto imprevisto veio enfim apagar de meu coração esse tênue fio de esperança, e me fez ver meu destino neste mundo fixado para sempre. Desde então, resignei-me sem reservas e reencontrei a paz."

"Sozinho pelo resto de minha vida, já que só encontro em mim mesmo a consolação, a esperança e a paz, não devo nem quero mais me ocupar de outra coisa além de mim. [...] Entreguemo-nos por inteiro à doçura de conversar com minha alma, já que é esse o único prazer que os homens não podem me tirar."

"Mas, nessa ociosidade do corpo, minha alma permanece ativa. Ela continua a produzir sentimentos e pensamentos, e sua vida interior e moral parece ter sido intensificada com a morte de todo interesse terrestre e temporal. Meu corpo não é para mim nada além de um embaraço, um obstáculo, e desprendo-me dele de antemão, tanto quanto posso."

terça-feira, 3 de junho de 2025

O jovem Will Andrews

 "Antes que o sono chegasse, ele fez uma tênue associação entre sua fuga de Francine aquela noite em Butcher's Crossing e a fuga que havia acontecido poucas horas antes diante da búfala eviscerada, ali nas Rochosas do Colorado. Ocorreu-lhe que não fugira do búfalo feito uma garotinha enjoada diante do sangue e do fedor das tripas para fora. Ficara nauseado e fugira devido ao choque de ver o búfalo, momentos antes orgulhoso, nobre e cheio da dignidade da vida, então abatido e impotente, um pedaço de carne inerte, destituído de si mesmo, ou da noção de si mesmo, obrigado a ficar pendurado grotesca e zombeteiramente diante dele. Aquele animal não era mais ele mesmo; ou pelo menos não era aquilo que havia imaginado. Sua identidade havia sido aniquilada e, naquele extermínio, Andrews sentira a destruição de alguma coisa dentro de si, que não tinha sido capaz de enfrentar. Então, dera as costas e fugira." 

WILLIAMS, John. Butcher´s Crossing. Tradução de Alexandre Barbosa de Souza. Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2016. p. 183.

quinta-feira, 13 de março de 2025

A mão visível do autor

O fantástico sr. Raposo (2009), de Wes Anderson 

Assisti a O fantástico sr. Raposo (2009), do Wes Anderson, e me dei conta de que o que mais me comove no cinema é observar que ainda há diretores interessados na criação artesanal, na elaboração afetiva, na construção cuidadosa de seus filmes. Há tempos não via nada do Anderson, e esse retorno ao seu cinema foi como reencontrar um bolsão de ar em meio a uma enxurrada de produções que rejeitam a mão do autor para priorizar a mão invisível do mercado — falo sobretudo, mas não apenas, dos filmes encomendados pelos e para os streamings. 

Que o discurso de aceitação do Sean Baker na cerimônia de entrega dos Oscars sirva de incentivo para a produção e descoberta de velhos e novos autores. 

Por fim, uma curiosidade: o Noah Baumbach compartilha com o Anderson os créditos do roteiro de O fantástico sr. Raposo (assim como de A vida marinha com Steve Zissou, 2004). 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Pequena noite manual

Cacciata dei progenitori dall'Eden (detalhe), de Masaccio

"Talvez o Éden, como querem por aí, seja a projeção mitopoética dos bons momentos fetais que perduram no inconsciente. De repente compreendo melhor o espantoso gesto do Adão de Masaccio. Ele cobre o rosto para proteger sua visão, a última coisa que foi dele; guarda naquela pequena noite manual a última paisagem do seu paraíso. E chora (porque o gesto é também o que acompanha o pranto) quando entende que é inútil, que a verdadeira condenação é isso que já começou: o esquecimento do Éden, ou seja, a conformidade bovina, a alegria barata e suja do trabalho e do suor da própria fronte e as férias remuneradas." 

Cortázar, O jogo da amarelinha, p. 484.

Suplicamos a Deus que nos livre de Deus

"Quando estava eu em minha primeira causa, eu não tinha Deus...; queria a mim mesmo e não queria nada mais; era o que eu queria, e queria o que eu era, e estava livre de Deus e de todas as coisas... Por isso suplicamos a Deus que nos livre de Deus, e que concebamos a verdade e gozemos dela eternamente, lá onde os anjos supremos, a mosca e a alma são semelhantes, lá onde eu estava e onde queria isso que era e era isso que eu queria..." 

Meister Eckhardt, sermão Beati pauperes spiritu