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| Wings, 1927, de William A. Wellman |
segunda-feira, 22 de janeiro de 2024
domingo, 21 de janeiro de 2024
Busca sem fim em uma biblioteca infinita
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| Boyhood of Lincoln, 1868, de Eastman Johnson |
"A tarefa infinita do leitor, que é percorrer a biblioteca universal em busca de um texto que o defina, e subvertê-lo, multiplica-se (se é que o infinito pode se multiplicar) quando esse leitor assume sua condição de tradutor." (Manguel, 2020, p. 78).
Em texto sobre o ofício do tradutor, Manguel desenha essa imagem, que me parece infinitamente bela, sobre o percurso do leitor através, numa perspectiva inegavelmente borgiana, de uma biblioteca universal. A ideia de uma tarefa incessante, de um conjunto incalculável de livros, da busca por uma autocompreensão nascida da subversão do texto de outro, daquele texto, e a multiplicação impossível, mas possível, na literatura, do infinito. E como estamos, sem que o percebamos, talvez, ou percebendo-o mas sem conseguir colocá-lo em palavras, nessa busca incessante, de prazer e dor e desespero e angústia e uma ou outra faísca de reconhecimento que, mesmo centelha, é capaz de incendiar.
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MANGUEL, Alberto. A outra escrita. In: Notas para uma definição do leitor ideal. 1a. ed. São Paulo: Edições Sesc, 2020.
domingo, 14 de janeiro de 2024
O espírito tomou conta de tudo
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| Cloud study, 1822, de John Constable |
"O fato de que coisas desconhecidas e misteriosas eram relevantes para nós me levou a pensar nos anjos, aquelas criaturas místicas que estavam ligadas não apenas ao divino mas também ao humano, e portanto expressavam melhor que qualquer outra figura a dualidade na natureza do outro. Ao mesmo tempo havia algo profundamente incômodo tanto nas pinturas como nos anjos, já que ambos pertenciam fundamentalmente ao passado, àquela parte do passado que deixamos para trás, com a qual não temos mais nada a fazer no mundo que criamos, onde o magnífico, o divino, o solene, o sagrado, o belo e o verdadeiro deixaram de ser referências válidas e, ao contrário, passaram a ser dúbias ou até ridículas. Isso significava que aquilo que estava além, representado até a época do Iluminismo pelo divino, trazido até nós por meio da revelação e que no Romantismo era a natureza, onde a revelação se expressava através do sublime, agora não encontrava mais nenhuma forma de expressão. Na arte, o que estava além era sinônimo de sociedade, ou seja, os agrupamentos humanos, que com seus conceitos e relativismos davam conta desse aspecto. Na história da arte norueguesa essa ruptura se deu com Munch, foi nas suas pinturas que o ser humano, pela primeira vez, ocupou todo o espaço. Enquanto no Iluminismo o homem era subordinado ao divino e no Romantismo pertencia à paisagem em que era representado, as montanhas são grandes e ameaçadoras, o mar é grande e ameaçador, até mesmo as árvores e as florestas são grandes e ameaçadoras, enquanto os homens, sem exceção, são pequenos, em Munch é o contrário. É como se os seres humanos incorporassem tudo em si, apropriando-se de tudo. As montanhas, o mar, as árvores e as florestas, tudo se tinge de humanidade. Não das ações e da vida exterior dos homens, mas de seus sentimentos e de sua vida interior. E, uma vez que o ser humano se assenhoreou da situação, ficou claro que não havia um caminho de volta, assim como não houve um caminho de volta para o cristianismo quando ele começou a se alastrar como um incêndio pela Europa nos primeiros séculos da nossa era. O ser humano em Munch é gestalt, sua vida interior ganha formas exteriores, o mundo é agitado, e o que se revela depois que essa porta é aberta é o mundo como gestalt: nos pintores que vêm depois de Munch as próprias cores, as próprias formas, não aquilo que elas representam, é que carregam os sentimentos. Entramos num mundo de imagens onde a expressão em si é tudo, o que obviamente significa que já não há nenhuma dinâmica entre o exterior e o interior, somente uma divisão. No auge do modernismo a divisão entre a arte e o mundo era quase absoluta, ou, dito de outra maneira, a arte era um mundo em si. O que se levava e conta nesse mundo, sem dúvida, era uma questão de gosto individual, e logo esse gosto se tornou o núcleo da arte, que portanto podia, e em certa medida devia, para poder sobreviver, abrir-se para os objetos do mundo real, e, no estágio em que nos achamos agora, no qual o material da arte não tem mais nenhuma importância, toda a ênfase está no que a arte expressa, ou seja, não no que é, mas no que pensa, em quais ideias carrega, de tal sorte que o último fragmento de objetividade, o último fragmento de algo exterior ao mundo humano foi abandonado. A arte se tornou uma cama desfeita, algumas copiadoras numa sala, uma motocicleta sob um teto. E a arte se tornou o próprio público, o modo como reage, o que os jornais dizem sobre ela, o que importa é o artista. É assim. A arte não possui nada exterior a si, a ciência também não, a religião tampouco. Nosso mundo está encerrado em si mesmo, encerrado em nós, e não há mais como escapar dela. Quem nessas circunstâncias clama por mais interioridade, mais espiritualidade, não entendeu nada, pois aí é que está o problema, o espírito tomou conta de tudo. Tudo se tornou espírito, até mesmo o nosso corpo não é mais corpo, mas ideia de corpo, algo que se encontra no paraíso de imagens e representações dentro de nós e sobre nós, onde uma parte cada vez maior da nossa vida é vivida. As fronteiras daquilo que não nos diz nada, o impenetrável, foram eliminadas. Compreendemos todas as coisas, e isso porque fazemos tudo em proveito de nós mesmos. Hoje em dia, curiosamente, todos os que se ocuparam do neutro, do negativo e do não humano na arte se voltaram para a linguagem, é aí que o incompreensível e a alteridades têm sido buscados, como se estivessem à margem da expressão humana, em outras palavras, na periferia da nossa capacidade de compreensão, o que de fato tem uma lógica: onde mais poderiam estar num mundo que já não reconhece o que está além?"
(KNAUSGÅRD, Karl Ove. A morte do pai. 2a ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. pp. 206-208)










