![]() |
| Crédito: Cena do filme Beau travail, de Claire Denis |
"O curioso é que, entre todas as coisas, eu me preocupara achando que Boris era quem era um pouco afetuoso demais, se é que afetuoso é a palavra certa. Na primeira vez em que ele tinha se virado na cama e passado um braço em volta da minha cintura, fiquei ali deitado semiacordado por um momento, sem saber o que fazer: encarando minhas velhas meias no chão, garrafas de cerveja vazias, minha edição de bolso de O emblema vermelho da coragem. Por fim — constrangido —, fingi um bocejo e tentei rolar pra longe, mas ele suspirou e me puxou pra mais perto, com um movimento de aconchego sonolento.
Shh, Potter, ele sussurrou na minha nuca. Sou só seu.
Era estranho. Era estranho? Era; e não era. Eu voltara a pegar no sono logo em seguida, embalado por seu cheiro amargo e sujo de cerveja, e por sua respiração ressonando baixinho no meu ouvido. Estava ciente de que não poderia explicar aquilo sem fazer parecer mais do que era. Nas noites em que eu acordava sufocando de medo lá estava ele me segurando quando eu me erguia apavorado na cama, puxando-me de volta pra cobertas ao seu lado, murmurando num polonês sem sentido, sua voz rouca e estranha do sono. Adormecíamos nos braços um do outro, escutando música do meu iPod (Thelonius Monk, Velvet Underground, música de que minha mãe gostava), e às vezes acordávamos agarrados como náufragos ou crianças bem menores.
E no entanto (essa era a parte sombria, era isso que me incomodava), também houve outras noites bem mais confusas e fedidas, os dois lutando pelo quarto parcialmente nus, uma luz fraca vindo do banheiro e tudo aureolado e instável sem meus óculos: mãos um no outro, bruscas e rápidas, cervejas derrubadas enchendo o carpete de espuma — divertido e nada de tão perturbador quanto estava de fato acontecendo, valendo mais do que a pena pelo arquejo forte quando eu revirava os olhos e esquecia tudo; mas quando acordávamos na manhã seguinte de barriga pra baixo e gemendo em lados opostos da cama tudo esmorecia numa incoerência de lampejos na contraluz, agitados e mal iluminados como num filme experimental, o estranho esgar das feições de Boris já desaparecendo da memória e nada daquilo sendo mais relevante na nossa vida real do que um sonho. Nunca falávamos disso; não era bem real; e enquanto nos aprontávamos pra escola atirávamos sapatos, espirrávamos água um no outro, tomávamos aspirina pra ressaca, ríamos e fazíamos piadas o tempo todo até o ponto de ônibus. Eu sabia que as pessoas iam ficar com a ideia errada se soubessem, não queria que ninguém descobrisse, e sabia que Boris também não, mas ao mesmo tempo ele parecia tão completamente despreocupado que eu tinha quase certeza de que aquilo não renderia mais que uma risada, não era nada pra levar a sério demais ou com que se preocupar. E no entanto, mais de uma vez, perguntei-me se deveria tomar coragem e dizer algo: estabelecer uma espécie de limite, deixar as coisas claras, só pra ter certeza absoluta de que ele não tinha ficado com a impressão errada. Mas o momento nunca chegou. Agora não fazia sentido falar algo e criar um constrangimento sobre a coisa toda, embora esse fato não me servisse de grande consolo.
Eu odiava o quanto sentia sua falta."
TARTT, Donna. O pintassilgo. Tradução de Sara Grunhagen. 1a ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 277)
//
Me parece bonito que esse trecho, em particular, e todos os capítulos que tratam da amizade entre Theo e Boris, em O pintassilgo, tenham sido escritos por uma mulher. Sinto a mesma coisa diante de Beau travail, da Claire Denis. Imagino que tenha a ver com a naturalidade com a qual as mulheres lidam com a intensidade de suas amizades femininas, e com o quão surpreendente deve ser, para elas, identificar o desconforto que essa mesma intensidade fraternal gera na maioria dos homens, mesmo que eles também tenha vivido experiências semelhantes.

Nenhum comentário:
Postar um comentário