domingo, 3 de setembro de 2023

Os ciborgues e as fronteiras

Minha relação com o modo pelo qual as teorias pós-estruturalistas explicam o mundo (e a arte) é cheia de altos e baixos. Por um lado, entendo que elas surgem como uma atualização necessária — para o caráter difuso e diluído de nossa contemporaneidade — do estruturalismo clássico. Por outro, não deixo de me sentir desafiado (incomodado?) pela falta de referências e categorias sólidas, pela sensação de que cada objeto pode demandar metodologias e formas de abordagem específicas, completamente outras. Sei que me aferrar ao passado é, na melhor das hipóteses, arriscado e filosoficamente perigoso (para não dizer flagrantemente retrógrado), mas até hoje não consigo não lamentar (intimamente) a falta de posições e categorias firmes que me (nos) ajudem a avançar pelos caminhos da investigação filosófica.

Escrevo sobre isso porque acabei de ler o Manifesto ciborgue, da Donna Haraway, um texto que se articula basicamente em torno da ideia da implosão de fronteiras — entre biologia e máquina, entre humanidade e animalidade, entre homem e mulher. Claro que a impressão imediata, em se tratando de um texto de meados da década de 1980, é a de que Haraway foi uma visionária e conseguiu profetizar boa parte do que nossa relação (cada vez mais problemática) com a tecnologia viria a ser a partir da virada entre séculos. Sob esse aspecto, ler Manifesto ciborgue é uma experiência de fato impactante.

Mais que isso, suas reflexões sobre a necessidade de se estabelecer uma resistência monstruosa (regeneração ao invés de renascimento) às novas formas de dominação e exploração hegemônicas que se estabelecem nesse mundo ciborgue são urgentes e, ainda hoje (talvez mais hoje do que à época de sua publicação) politicamente acuradas. Nessa nova era, arquitetada sobre sistemas de informação cada vez mais complexos, ergue-se um novo (que, na verdade, é bem velho) tipo de autoridade repressiva que exige novas estratégias de resistência — as quais ainda não emergiram com a intensidade e o nível de organização que a urgência da situação exige.

É difícil não estar de acordo com os argumentos de Haraway em suas proposições mais práticas, mas aquele (meu) controverso apego às categorias e estruturas (me) faz enxergar com alguma desconfiança suas reflexões acerca dessa absoluta confusão das fronteiras. Fico me perguntando se a abolição de qualquer referência (sim, sei que elas são resultado de um processo de colonialismo filosófico-científico que precisa ser superado) não acabaria dificultando essa tão necessária organização de uma nova resistência. Nossa filosofia é pós, mas nossa realidade é pré, e não deixa de me parecer algo arrogante e socialmente deslocado preconizar a abolição das estruturas sobre as quais ainda se elabora nossa realidade mais cotidiana.

Nesse aspecto, me parece mais factível e positivo o que diz Chomsky em suas proposições socialista libertárias: antes de romper as grades da prisão, é necessário alargar seus limites.

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